sexta-feira, agosto 17, 2012 Iara Maria Carvalho
A primeira vez em que Isadora sentiu a quentura de suas mãos, foi quando se conheceram. Foi na escola. Ele era seu professor. Sentiu sua mão quente no ombro, ela, só uma menina de 14 anos, gordinha, agradável, um pouco bonita talvez, que boniteza é só um detalhe. Ele, um museu de homem: nao pelos fios brancos que já se anunciavam, mas pela grandeza que transparecia, muito solícito, quase sempre de braços cruzados e um meio-riso que causava delírio nas alunas. Ensinou a Isadora as manhas do vôlei, da bola, da vez. E ela aprendeu.A segunda vez em que Isadora sentiu a quentura de suas mãos, foi quando, anos depois, se reencontraram. Foi no supermercado. Ele era sua lembrança. Um encontro de mãos diante de uma caixa de extrato de tomate, uma conversa boba de reencontro, "está mais cheinha!", ela fingiu não ouvir. Um encontro com direito a lições sobre o sódio nos alimentos e sua ação prejudicial à saúde. E ela aprendeu.A terceira vez em que Isadora sentiu a quentura de suas mãos, foi quando elas percorreram seu corpo cheio de curvas durante o primeiro beijo. Foi num bar. Ele era seu amante. Ela: menina aos 20, louca de costume, muito mais sabiá do que sábia, diante de um homem maduro, controverso, muito mais galo que galã. Quis ensinar-lhe os posições do Kama Sutra. E ela aprendeu.A quarta vez em que Isadora sentiu a quentura de suas mãos, foi quando os dois dividiram uma mesma chave. Foi no apartamento novo. Ele era seu marido. Muito mais por preguiça que por causa do seu peso. ele não a levou no colo. Ela tinha arranjado os melhores móveis, uma geladeira pra chamar de sua. Ele deixou tranquilo seus antigos compromissos e quis mostrar à moça as magias e agruras da vida a dois. E ela aprendeu.Muitas vezes se repetiram. Muitas mãos a tocaram. Mão de flor, de flauta, de ferro.A mão de ferro manchou o corpo de Isadora.Ela, que aprendeu a acreditar no amor eterno, ficou interna, doente, demente, de amor.Esqueceu-se de Isa, e ficou só Dora. A Dor.Foi quando sentiu pela última vez a quentura de suas mãos. Foi uma quentura na cara, nas costas, no ventre. Uma quentura bem no meio de seu avesso. Ele bateu, ela chorou. Ela explodiu, ele mimou. Quis trazê-la com regalos, comprou-lhe o melhor vestido, travestiu-se de santo, ajoelhou-se, lavou seus pés e os enxugou com o melhor vento de sua boca. Mas Isadora, mais Dora que Isa, mais mágoa que amor, resistente, não se rendeu. E, como sempre, aprendeu.****************************************Gostaria de lembrar que as histórias são ficcionais, ou seja, não tratam de pessoas específicas e histórias necessariamente reais, embora possam se inspirar nelas. As histórias não têm a intenção nem de enaltecer nem de menosprezar o ego das gordinhas. É uma forma de trazer à discussão qualquer olhar sobre quem está fora dos padrões. Só mais uma coisa: as histórias contadas e as opiniões expressas não refletem a minha opinião pessoal sobre as pessoas gordas. É uma provocação, como deve ser toda forma de Arte.
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